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EDUCAÇÃO DIFERENTE - Gabinete de Apoio e de Intervenção

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

EDUCAÇÃO DIFERENTE - Gabinete de Apoio e de Intervenção

EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E DEFICIÊNCIA

Depoimento

Tenho um filho de 23 anos, com elevado grau de dislexia. Este facto não significa que seja menos inteligente. De facto até é bastante inteligente. O problema que se sente para orientar um filho assim é que se tem que lutar contra o mundo. Uns querem ensino especial, outros classificam a criança como problemática, outros chegam a insultá-los como burros. Tudo isto o meu filho suportou, com 7 anos anos fui encontrá-lo a chorar e a dizer que a cabeça dele não servia para nada - estava na 3ª classe e efectivamente não sabia nada. A medo, consegui que repetisse a 3ª classe (horrorizava-me a mim e a ele a classificação de estar no ensino especial, nesta sociedade cruel). Acho que fui tanto de meiga como de dura com ele, de tanto lhe dizer que cada um tinha que viver com os problemas que tinha e toda a gente tinha problemas. Se ele tinha dislexia, azar, tinha que estudar mais do que os outros e importantíssimo " assumir a dislexia e encarar com naturalidade a diferença. Foi uma caminhada muito difícil , mesmo muito. Quando o pequeno chegou ao 11º ano, já mais maduro aceitou ir a uma psicóloga e apresentar no liceu um relatório para pedir o beneficio do estatuto especial. Mas só o fez quando ele o pediu, nunca lho impus. E, quando foi ele a pedir para ter não sentiu complexos. A reacção da escola é que foi esquisita!!! Não queria aceitar por só ter pedido no 11º ano e por ser bom aluno. Será que é assim tão difícil perceber e reconhecer o valor que tem uma criança que consegue evoluir até ao 11º ano, ser bom aluno e ter dislexia severa. Caramba, é obra e muito trabalho. E também muita perseverança , tenacidade e capacidade de recuperação de alturas em que o desanimo parecia querer vencer. Mas éramos 2 a lutar, ele com o problema e eu com a certeza que ele o conseguia vencer. Ainda o tem, hoje em dia, e há-de ter sempre mas entrou do Instituto Superior Técnico com 19,6 na cadeira de Física e média de entrada de 16 ou 15. Lá estava o português a baixar a média. Lá estava ele a ler jornais, livros tudo o que pudesse ajudá-lo a melhorar a escrita e a comunicação oral. Continua no Técnico, entrou para electrotecnia, mas no 2º ano resolveu pedir a transferência para civil. Aí voltou a sentir dificuldades. É um curso onde a capacidade de expressão física e oral é mais exigente. E que felicidade foi quando ele se voltou para mim e disse - Mãe, vou ver se no técnico também se pode recorrer ao estatuto especial de aluno com dislexia. É que se for possível eu claro que quero, quero tudo a que tenho direito. Grande Homem. Zero complexos. E, zero complexos não só diminuem a ansiedade, os efeitos da dislexia, dão auto confiança (a namorada é giríssima e de mão cheia) e as notas estão a ser cada vez melhores. Já chegou a ter a melhor nota de uma cadeira em que em 100 passaram 13. Conclusão a que quero chegar. Dislexia não é doença é diferença. Ser diferente é mau quando não se assume a diferença. Ser diferente e assumir a diferença, trabalhando mais que os outros nuns aspectos. E, sobretudo, assumir que ser diferente não é ser coitadinho e nunca, mas mesmo nunca deixar que assim o considerem. É zangar-se a sério com quem o quer tratar assim mesmo que a principal pessoa que o quer tratar assim seja ele próprio. Ter uma associação que ajude as crianças com dislexia é importante mas não chega. É em casa, com todo o amor e firmeza (quem pode ser mais bruto e directo que uma Mãe e um Pai que não se poupam a dar apoio, ombro e carinho?). Batalhem neste aspecto. Eu sei que o meu filho é 5 estrelas mas, será que os outros quando se lhes puxa pela auto estima não serão também? Pais, acreditem que o esforço vale a pena. Chora-se muito, é um caminho a tropeções mas, mais vale chorar antes, quando ainda se pode corrigir do que depois quando já não há solução. Aí o choro é para sempre, e o sempre é muito comprido para o filho.  Vi uma vez uma frase linda num postal do dia do pai - Um grande Pai nada nos desculpa e tudo nos perdoa. Com um filho que tem um problema tem mesmo que ser assim. Não se lhe pode desculpar nada mas tem que se lhe perdoar tudo com muito AMOR.

VALE A PENA

Maria Melo

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